Divulgar idéias próprias, combater o discurso invertido corrente, aprender a dividir, expor sentimentos,
trazer poesia ao dia-a-dia, eis a abrangente ação deste veículo de idéias. De tudo, um pouco - minha meta.
 

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Rossana Fischer










11.4.05
 





FALANDO DE CINEMA

Com certeza, a maioria dos companheiros aqui já deve ter visto o filme intitulado O PIANO. Dirigido por Jane Campion tem como atores Holly Hunter Harvey Keitel, Sam Neil, Anna Paquin, Kerry Walker, Geneviève Lemon, Tungia Baker e data de 1993.
É um filme denso que utiliza cenas do passado de alguns dos personagens, processos defensivos que *desarticulam o processo linear do pensamento lógico*.Quem diz isso é o psicanalista Waldemar Zusman, autor do livro OS FILMES QUE EU VI COM FREUD, no qual ele nos fornece uma interpretação psicanalítica do filme, ou seja,*um ângulo psicanalítico de abordagem da temática em exposição*.
Em O PIANO, a protagonista Ada é uma mulher de uns 25 anos, muda desde os 6, mãe de uma menina com essa mesma idade. Um trauma emocional deve ter causado esse mutismo, o que se depreende das imagens lançadas na tela e da postura de Ada no início do filme. Logo se percebe que Ada, provavelmente surpreende sua mãe em atitude comprometedora com alguém e opta por ficar muda para não ter que contar a ocorrência ao pai.
Entendendo-se com os circunstantes através de gesticulação ou bilhetes, compensa-se no piano ao qual se dedica ardorosamente e com o qual mantém conversas mentais.
Essas deduções têm a ver com o fato de que sua mãe jamais é mencionada, em casa de seu pai, ao longo de todo o filme. É provável que tenha fugido com o amante.
Ada é, portanto, mãe solteira e está pronta para ser levada pelo pai ao encontro de um fazendeiro neozelandês, o Sr. Stewart, com quem o progenitor resolve casá-la. E ela vai repetir compulsivamente a saga de sua mãe. Só que a filha de Ada não repete o comportamento da mãe quando desccobre que esta e seu aluno de piano não mantêm apenas a relação professor/aluno. Fala com seu pai adotivo e consegue que ele decida espionar Ada.
É oportuno observar que o mutismo de Ada serve também a ela própria que, em suas fantasias edipianas, pode imaginar em ter o pai só para si.
Chegadas à ilha, aportam numa praia deserta ela e a filha e aí pernoitam numa barraca improvisada ao lado de malas, baús e do piano de que Ada não consegue separar-se. No dia seguinte, aparece o marido para transportá-las até a fazenda. O piano, por ser muito pesado, permanece na praia para ser apanhado depois.
Na fazenda do Sr. Stewart, uma foto é batida simbolizando o casamento.
Enquanto isto, a filha de Ada põe-se à vontade no novo ambiente, contando para Nessie, uma das empregadas da casa, a história do primeiro casamento de sua mãe, num estilo indisfarçável de autovalorização, o que ela própria desmente logo em seguida, entrando com outra história fantasiosa na qual inclui a mudez materna como uma reação a um choque traumático aleatório. Na verdade, sabe-se agora que Ada é muda desde criança, depois da cena a que assiste entre sua mãe e seu professor de piano.
A certa altura, a criança pede que Ada lhe conte a história de seu casamento, já tantas vezes contada e recontada. E Ada mais uma vez cede, apresentando-lhe mais uma versão mítica de sua relação amorosa com seu professor, e a comunicação entre os dois através da leitura da mente. A explicação para o casamento não se ter realizado é outra fantasia. Ela dá como razão uma surdez que assalta o professor, tomado pela emoção do medo.
A construção da história denota que Ada tem conhecimento das razões de sua mudez.
Na manhã seguinte, Ada e sua filha vão à casa de George Baines, um fazendeiro aculturado da região, para pedir-lhe que resgate o piano deixado na praia, já que o Sr Stewart se encontra viajando a negócios.
O reencontro de Ada com o piano é delirante.
Refratário à idéia do resgate no primeiro momento, George reconsidera o caso depois de arquitetar um plano que veremos se desdobrar adiante.
Na primeira oportunidade, oferece ao Sr.Stewart um pedaço de suas terras em troca do piano, operação que é fechada à revelia de Ada.
George, agora aluno de Ada, dá início ao seu plano de sedução. Ada o repele. Segue-se um jogo de insinuações até ficar acertado que o piano será devolvido depois de concessões por parte dela em número correspondente ao de teclas pretas do piano.
A cena do banho que a filha de Ada pretende dar no cão Flynn que ela encontra sujo e molhado de chuva, tem sentido metafórico, prenunciando a denúncia do acordo entre os dois amantes ao pai adotivo ludibriado.
Outro recurso usado para apontar os comportamentos desviantes é a encenação pelo pároco local de Barba Azul, que tem significação mítica na trama do filme, valendo como prenunciador do destino de certos personagens, como no coro das tragédias gregas.
Ada, na platéia ladeada pelo marido e pelo amante, se mostra exultante. A encenação termina conturbada quando um jogo de sombras entra em ação para revelar a punição da última esposa do Barba Azul. Os habitantes locais, ainda primitivos, não conseguem elaborar a cena, invadem o palco. E o espetáculo é suspenso.
As aulas têm prosseguimento e o comprometimento de Ada vai tomando vulto. Sua menina mostra desejo de assistir às aulas, o que lhe é negado. É o bastante para despertar a curiosidade infantil. Ela passa a espreitar os dois e descobre o segredo, que conta a seu pai adotivo como contrapartida à exclusão sofrida por parte de sua mãe.
A esta altura, George ama Ada e passa a detestar a progressão do processo de prostituição engendrado por ele próprio. Já Ada mentaliza de maneira diversa a mesma experiência. *O piano era para ela algo que simbolizava as figuras mais significativas de sua vida, sua mãe e seu professor, com quem vivera um romance malogrado, de que resultara aquela filha que a acompanhava. Para ela, o piano só podia ser trocado por um outro amor verdadeiro, ainda que o caminho que a conduzisse a esse amor pudesse soar como vender-se pelas teclas que a levassem à recuperação do piano*.
George prefere devolver o piano. Stewart, sem condições de pagar pelas terras trocadas pelo instrumento, opta por conquistar a esposa.
Por seu lado, Ada sente o peso de uma tripla tensão: a filha está do lado do pai; George desiste do seu propósito com a renúncia ao piano; ela, Ada, sente-se mais ligada ainda a George. E procura-o como mulher.
Continuando na tentativa de conquistar Ada, Stewart chega a fazer certos progressos, com o esforço de ambos. Até que souberam da pretensão de George de deixar a região. Ada vale-se do piano para expressar sua angústia. Stewart percebe e faz com que ela prometa não procurar o outro. Apesar de tudo, Ada retira uma das teclas pretas do piano, onde escreve: *Meu coração te pertence* e manda a filha entregá-la a George.
Mais uma vez, a menina favorece o pai, entregando-lhe a mensagem de que era portadora. Transtornado, Stewart volta-se contra a esposa e lhe decepa o dedo indicador a machado. Enrola o dedo amputado num pano e manda-o para George pela menina, com o aviso de que seguirá amputando os dedos de Ada a cada encontro marcado. Não satisfeito, parte para matar George e o encontra dormindo. Nota aí que seu ódio já não tem aquela intensidade anterior. E, então, pergunta a George se alguma vez ouviu a voz de Ada, ao que George responde que apenas uns leves sinais. Stewart confessa que a ouviu em sua cabeça, apesar de os lábios de Ada não se moverem. Parecia dizer-me que tinha medo de seu próprio desejo e que eu deixasse que você a salvasse.
Stewart tem a sensação de que está enclouquecendo.
Hoje, sabe-se que isto é uma forma de comunicação extra-sensorial, conhecida como Identificação Projetiva, como ensina o autor psicanalista.
Em seguida, pede a George Baines que se vá e a leve consigo.
Eles se vão por mar para um povoado próximo. Volta à cena o piano apesar da recomendação dos nativos de que a canoa pode não agüentar a carga.
A certa altura, Ada resolve desfazer-se do piano. George espanta-se, mas ela insiste. Em seu íntimo, opera-se uma revolução. Escrava daquele instrumento há tanto tempo, chega a um limite crítico. Sua ordem é cumprida. O piano é lançado ao mar. Com ele, porém, Ada é repentinamente arrastada como se aquilo fosse um suicídio premeditado, além da intenção de ali enterrar sua mãe que o piano simbolizava. A corda, que se emaranhara no sapato de Ada, surgia agora como um cordão umbilical ligando irremediavelmente as duas, cordão que ela consegue cortar ao se desembaraçar do sapato e, num esforço, voltar à superfície como se nascesse ali, naquele momento. Durante a ação de salvamento, ela se surpreende com sua voz mental: *Que morte, que destino, que surpresa. Minha vontade escolheu a vida? Ela me assustou como a muitos outros*.
Ada, enfim, sente-se desembaraçada do domínio de sua vontade, até ali, mais forte do que sua razão: o seu inconsciente. A cumplicidade de Ada com sua mãe acarretara-lhe um profundo sentimento de culpa, que a tornou muda. Já sua filha, vivenciando situação idêntica, optou pela atitude inversa, pagando o preço de assistir, também culpada, à amputação do dedo de sua mãe, ligação de Ada com as teclas do piano.

Em seu outro novo lar, Ada continua a lecionar piano, aguarda a prótese do dedo, providenciada por George, e faz recuperação de voz. Nesses exercícios regulares, ela aparece com a cabeça coberta com um pano preto, que representa o luto pela perda da mãe.
A imagem do piano no fundo do mar continua recorrente em sua mente ; ainda sente saudades dele. Nessas ocasiões, ela se encontra também com sua mãe, de quem já pode viver separada. Sente-se liberada; veste, enfim, sua própria identidade.
O piano silente em seu profundo sepulcro é, agora, em muitas noites, sua real canção de ninar.


Então, galera, que acharam vocês de ver filme com Freud? Quem se interessar pelo texto na íntegra, pode encontrá-lo no livro Os filmes que vi com Freud, de Waldemar Zuzman.(Imago)
Eu, por mim, penso que é de grande ajuda para o espectador comum, constituindo-se num valioso exercício de percepção.


Tenho privado vocês de poemas, contrariando meu costume ao blogar. É que, quando o post é longo, prefiro respeitar o tempo dos leitores que não podem ater-se a um único blog.
Esperemos o próximo post.

publicado por Magaly Magalhães às 11:38 PM
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