Divulgar idéias próprias, combater o discurso invertido corrente, aprender a dividir, expor sentimentos,
trazer poesia ao dia-a-dia, eis a abrangente ação deste veículo de idéias. De tudo, um pouco - minha meta.
 

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6.1.07
 



BEM-VINDO 2007!



Janeiro em curso, gente. Ao trabalho, então. E com empenho, com entusiasmo..

Abaixo estão estrofes soltas de poemas do conhecido Poeta e o livro ao qual pertencem. Fica fácil assim a identificação.

Quem já leu, por exemplo?


As garças capinavam
as águas.

A saliva das aves
movia o motor
do riacho.


Do livro *As Solas do Sol*
(Editora Bertrand Brasil, 1998)

...
A queda atalha a subida,
o homem permanece
uma pronúncia inacabada.

Tantas vezes caí
em teu lugar,
que descobri o inferno

ao repetir a salvação.
Tantas vezes caíste
em meu lugar,

que descobriste a salvação
ao repetir o inferno.


Do livro *Um Terno de Pássaros ao Sul* (Escrituras, 2000)


....
Só na velhice a mesa fica repleta de ausências.
Chego ao fim, uma corda que aprende seu limite

após arrebentar-se em música.
Creio na cerração das manhãs.
Conforto-me em ser apenas homem.

Envelheci,
tenho muita infância pela frente.

Do livro *Biografia de uma Árvore*
...
Chega um momento
em que somos aves na noite,
pura plumagem, dormindo de pé,
com a cabeça encolhida.
O que tanto zelamos
na fileira dos dias,
o que tanto brigamos
para guardar, de repente
não presta mais: jornais, retratos,
poemas, posteridade.
Minha bagagem
é a roupa do corpo.

...
Acerto o relógio pelo sol.
Percorro as dez quadras de meu mundo.
As ruas são conhecidas e me atalham.
...
Fazer as coisas pela metade é minha maneira de terminá-las.
Fabrício Carpinejar é poeta, jornalista e mestre em Literatura Brasileira pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Nasceu em Caxias do Sul (RS) aos 23 de outubro de 1972. Mora em São Leopoldo (RS). É autor dos livros As Solas do Sol (Bertrand Brasil, 1998), Um Terno de Pássaros ao Sul (Escrituras Editora, 2000) , Terceira Sede (Escrituras, 2001) entre outros. Seu nome é saudado por escritores comoAntonio Skármeta, Ivo Barroso, Fernando Monteiro, Antonio Carlos Secchin, Carlos Heitor Cony, Millôr Fernandes entre outros mais.
Para Millôr, Carpinejar não tem vergonha de fazer poemas em cima de seu cotidiano e nos
produz coisas do gênero:
Ela escolheu envelhecer comigo.
Pode ter sido compaixão pela
minha falta de jeito,
acaso ou acidentedos cabelos lisos
Ela escolheu envelhecer comigo
Pode ter sido amor,
Simpatia ou alguma
perda fora de mim
que despertou suas perdas.
Pode ter sido a idade que pedia um marido,
sei lá, o marido pedia uma idade.
Ela escolheu e aqui fez sua noite.
Suas mãos se toldam em uma tenda
quando alivia
Ela escolheu envelhecer comigo.
Pode ter sido compaixão pela
minha falta de jeito,
acaso ou acidente
dos cabelos lisos.

Ela escolheu envelhecer minha barba
de outros odores que não o seu.

Carpinejar por Capinejar:
*Eu procuro escrever como quem conversa, sem intermediários ou saída de emergência ao dicionário. Não preciso bancar o difícil, a vida já é difícil. Cabe descomplicar a vida, torná-la legível ao entendimento*.

*O poema é um cinema primitivo. Todo verso é uma montagem, permitindo a visualização das cenas, emprestando o que foi vivido aos personagens e tomando emprestado os que personagens sonharam para impulsionar as vivências*.
*Meus pais não merecem minha culpa. Meu pai Carlos Nejar e minha mãe Maria Carpi foram fundamentais porque nunca me cercearam, nunca me falaram que deveria ser escritor, nunca me pressionaram. Os livros da biblioteca de casa eram lidos e sublinhados e cada um marcava de uma forma diferente. Os livros foram as cartas que troquei com eles*.

*Eu sou apaixonado por textos que interrogam, não que dão certezas ou fórmulas. Textos que permitem a gente se duvidar um pouco mais do que o necessário, enlouquecer um pouco mais do que a dosagem normal, vibrar um pouco mais do que o permitido por lei. A poesia é essa libertação. Falar olhando nos olhos. Encarar com sinceridade o que podemos ser.
Poesia é a urgência, quando não temos nada a perder*.

*Percebo a literatura como um espaço sedutor para contar histórias, histórias para acordar, não fazer dormir. Tenho autocrítica e humor de sobra para rir de mim quando me levo a sério*.

*Eu quero a contradição. Procuro da música apenas o assobio, o início da melodia. Daí que meus poemas se assemelham a ferroadas da consciência mais do que a harmonia confortável do mel. Eu falo com a instabilidade de quem xinga, sussurra, sopra, dá conselhos, assim como é a vida.*

(Passagens ccolhidas na entrevista a Fabrício Carpinejar por LUÍS ANTÔNIO GIRON).
Longo o post? Mas não valeu a pena ouvir um pouco sobre Carpinejar? Há tanto mais a dizer...

publicado por Magaly Magalhães às 1:28 PM
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