Divulgar idéias próprias, combater o discurso invertido corrente, aprender a dividir, expor sentimentos,
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24.5.07
 

OS POEMAS SUSPENSOS

[AL - MUALLAQATI]








Alberto Mussa, o autor

No momento, leio Os Poemas Suspensos [Al – Muallaqat], tradução direta do árabe por Alberto Mussa. Um presentão, para mim um achado já que quase nada conheço da literatura árabe.
Feita a leitura dinâmica, posso adiantar alguma coisa para vocês.
Trata-se da poesia pré-islâmica que, a rigor, pertence à literatura oral. Os antigos beduínos memorizavam os textos e os transmitiam oralmente a recitadores que os difundiam entre as outras tribos. Só depois da fixação escrita do Alcorão é que se pôde falar em literatura árabe (632).
Mais ou menos um século se passou antes que os primeiros compiladores passasem a transcrever a poesia pré-islâmica tal como recitada pelos beduínos. Foi a partir do ano 750 que surgiram as primeiras antologias: a de Hammad al-Ráwiya contendo
sete poemas pré-islâmicos dos poetas: Imru al-Quays, Tárafa, Zuhayr, Ântara, Amr, al-Hárith e Labid; e a de Abu Zayd al-Quachi, bem maior, sob o título Jamhara al-Ashar al-Arab (coleção dos poemas árabes) que incluía a seleção de Hammad em um de seus capítulos. Foi aí provavelmente que o conjunto recebeu o nome de al-muallaqat (‘as suspensas’), de explicação lendária, o que não lhe tira a importância e o respeito da maioria dos críticos que vêem nele ainda o principal modelo da poesia pré-islâmica.

Cassida é o nome da forma poética a que pertencem os poemas suspensos e significa partida ao meio, pelo fato de serem eles uma sucessão de versos de dois hemistíquios que seguem uma única rima e um único metro, diferente da forma poética menor, o rajaz, de versos unitários, de ritmo similar ao andar dos camelos.

*Os Poemas Suspensos, como as cassidas em geral, falam da mulher que o beduíno ama; da natureza que o cerca; das coisas que: lhe são mais caras: a camela e o cavalo; dos prazeres da vida: a caçada, o jogo, o vinho; das qualidades do homem: generosidade, coragem, lealdade, sabedoria.*

Está aí uma das diferenças mais notáveis entre a poesia pré-islâmica e a lírica ocidental: a falta de liberdade de tema.

Concisão é a caractrística básica da poesia pré-islâmica: cada verso é uma unidade sintática. completa.

Outra característica é o leque de metáforas que se desenrolam a perder de vista, dando a impressão de que se mudou o tema. Há uma clara preferência pela descrição, pela comparação e pela alusão. E é justamente na beleza dessas imagens empregadas com propriedade que reside o valor desses poemas.

Em verdade, a poesia pré-islâmica não se encaixa nos moldes da literatura ocidental . Ela fala da nobreza de caráter do poeta, atitudes e qualidades de acordo com uma espécie de código de honra , a murua, que tem a ver com a idéia de plenitude e perfeição do gênero humano.

A poesia pré-islâmica é, enfim, uma poesia de natureza circunstancial. Seus poemas não são trabalhos de ficção. Referenciam sempre lugares e pessoas concretos, vivências, sentimentos.

Os poetas são homens acima do comum, heróis de seus poemas, com reconhecimento social. A tribo que tivesse em seu seio um poeta compensava-o regiamente, desobrigando-o de pagar o dote da noivas, coisa que não se concedia nem aos príncipes.

Como a poesia pré-islãmica abordava obrigatoriamente temas predeterminados, os poetas perdiam a liberdade criativa. Mas, se o poeta não podia escolher o tema, ele podia determinar a maneira de abordá-lo. É aí , nos sutis desvios do convencional, que o poeta se distingue e exibe sua originalidade.

*Lidos com atenção, os Poemas Suspensos tornam-se muito diferentes entre si. Em cada um deles percebe-se o contorno específico da personalidade do poeta: a licenciosidade de Imru al-Qays, a sabedoria de Zuhayr, o niilismo de Abid, a arrogância de Amr, o pragmatismo de al-Hárith, o hedonismo de Tárafa, a ferocidade de Ântara, a ironia de al-Asha, a astúcia de Nághiba, o esteticismo de Labid.*


Alguns excertos desses poemas.

De Imru al Qays:


1. Companheiros, alto! Choremos aqui à lembrança de um amor e de umas tendas, nos confins das colinas de areia, entre al-Dakul e HawmL;

2. e depois em Túdih; e depois em al-Miqrat: os vestígios ainda não se apagaram, entretecidos pelo vento norte e pelo vento sul.

3. Vejam! Nas planuras altas e por esses desvãos do terreno as fezes da gazela branca, pequenas como grãos de pimenta!

4. Choremos como eu, na manhã da partida, sob as acácias do clã, abrindo cabaças de colocinto!


De Abid:


14. Quem ganha um bem irá perdê-lo; quem tem esperança está sempre iludido;

15. quem tem camelos irá deixá-los como herança;quem conquista um butim será dspois saqueado;

16. quem se ausenta regresa; mas quem se auseta para ver a morte não regressa nunca.

17. Ter útero é o mesmo que ser estéril; saquear é o mesmo que ser pilhado.



De Tárafa:

45. Não me escondo, com medo, nas ravinas altas; é a mim que a tribo chama quaando pede socorro.

46. Quem me procura nas asembléias, me encontra; quem segue meu rastro pelas tendas de vinho, também.

47. Quem vem a mim, amanhece com um cálice abundante; quem o recusa, por ser rico, que fique então com sua riqueza, e a acrescente!

48. Quando o clã se reúne, estou sob o vão mais alto da tenda mais nobre, a que todos se dirigem.


De Ântara:

72. Vi a tribo se aproximar, multidão que se incitava mutuamente; e voltei à carga, indigno de censura;

73. e me chamaram*Antara*, e as lanças no ppeito do meu cavalonegro eram cordas de um balde suspenso nun poço fundo;

74. seu peito e seu pescoço abriam brechas no nimigo, mas não parei de avançar até que ele se vestisse de sangue;

75. desviou-se de uma lança arremessada contra o peito, e se queixou comigo, chorando, relinchando baixo;



De Amr:

34. Somos tios paternos para nossa gente, respeitamos seus direitos, carregamos o peso quee eles põem sobre nós.

35. Mas atacamos com lanças os inimigos que fogem e golpeamos com sabres os que nos atacam:

36. lanças de Khatt, de hastes flexíveis, e lâminas brilhantes, de fio aguçado.

37. Fendemos as cabeças das tribos e as apartamos do pescoço,



De Al-Hárith:

63. Quaando vós os fizestes desejar uma ilusão, e uma arrogante cobiça os levou até vós,

64. não vos enganaram, pois foram a miragem e a luz da manhã alta que ocultaram o vulto deles.

65. Ó grande orador que nos denuncia diante de Amr, isso não terá fim?

66. Um justo rei, o melhor entre os que amdam, a quem elogios não conseguem alcançar!



De Nábigha:

1. Ó morada de Maia entre as alturas e as faldas da montanha, desabitada, onde o passado dura para sempre!


2. Era no início do crepúsculo quando parei para interrogá-la, mas ela era inapaz de responder e já não havia rastro de ninguém,

3. exceto as ruínas de um estábulo, que a duras penas pude distinguir, e vestígios de uma vala, como uma cisterna cavada no chão duro, ao longo do camiho:

4. o fosso fora aterrado com areia úmida, e uma serva aplainou o solo com golpes de pá,



De Zuhrayr:

29. O que é a guerra senão o que conhecestes e experimentastes? E o que ela vem a ser nessas hisórias suspeitas?

30. Quando a instigam, instigam uma coisa horrenda, e ela é ávida, se lhe excitam o desejo, e logo arde.

31. Ela vos espreme como faz o moinho sobre o fardo de couro;e, fecundada duas vezes por ano, dá à luz gêmeos.

32. Ela gera para vós jovens tão malditos quanto Ahmar de Ad, depois os amamenta e os desmama.



De Labid:

78. Quando as assembléias se reúnem, é sempre um de nós quem defende as causas mais difíceis;

79. quem reconhece, divide e retira direitos entre as linhagens;

80. quem, sendo nobre, concede favor com largueza, benfeitor que pilha quanto deseja.

81. Nascemos de uma linhagem a cujos pais leis foram outorgadas:cada tribo com sua suna e seu ímã.



De Al-Asha:

1.Dê adeus à Hurayra, que a caravana parte, mas, homem, és capaz de dar adeus?

2. De palidez resplandecente, abundante a cabeleira, polida a face, ela caminha lenta como uma gazela de cascos feridos sobre a lama.

3. Quando vem da tenda da vizinha, é como uma nuvem que passa, sem tardança, sem precipitação .

4. Percebes que ela se afasta pelo ruído de colares e pulseiras, como arbustos buliçosos pedindo socorro ao vento.



Como imagino que haverá pessoas que gostarão de saber sobre o autor desta obra, seus caminhos, o esforço despendido para empreender seu trabalho, convido-os a clicar aqui e ler esta entrevista e esta outra.

publicado por Magaly Magalhães às 3:51 PM
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