
Marly de Oliveira
(De Flávia Magalhães)
Vamos falar de Marly de Oliveira?
Há poucos dias, lamentamos seu desaparecimento. Marly se foi na primeira sexta-feira de junho, deixando consternado o mundo literário .
Estamos aqui hoje por outra razão não menos importante: o dia de seu nascimento.
Nascida a 11 de junho de 1938, em Cachoeiro do Itapemirim, ES, Marly
deu à nossa poesia uma contribuição valiosa.
De linguagem substantiva, sua poesia é rica em conteúdo meditativo, em inquirições sobre o destino humano, em indagações sobre o sentido da vida.
Vejamos alguns de seus cristalinos poemas:
Não conheci o desterro
Não conheci o desterro,
mas sei a quanto obriga.
Vivo na minha terra,
embora desencontrada. Quem sabe
de mim, quem me ouve
o que não digo, quem segura
a rédea de meu sonho, permitindo
o risco da vertigem, o perigo
de conhecer o abismo?
Minha felicidade vem de quando estou só
Minha felicidade vem de quando estou só
e ninguém me interrompe no poema,
essa espécie de transfusão
do sangue para a palavra,
sem qualquer estratagema.
A palavra é meu rito, minha forma
de celebrar, investir, reivindicar:
a palavra é a minha verdade,
minha pena exposta sem humilhação
à leitura do outro,
hypocrite lecteur, mon semblable.
Eu tão prepositiva, desfaleço
Eu, tão prepositiva, desfaleço,
na contorção do que se me propõe:
o mundo não se esquiva à inquisição,
o medo não é bom amigo, o medo
indica a minha forma de não ver
a vã provocação.
Que estreito este caminho, que murado!
Tão pouco que eu ousasse e já seria
talvez o passo necessário
no sentido de ter ou de abster-me,
mas sempre um passo, um movimento,
a voz, um surdo grito, sussurrando
o enleio que o amor conhece,
entretecendo com a hera que cobre o corpo
a matéria do meu espírito,
o seu sigilo, a disputa, os meus dispersos sentidos.
Mutas vozes fizeram-se ouvir a respeito de Marly poeta.
Vejamos o que nos diz Donaldo Mello:
“Marly construiu sua poesia vivenciando as mais elevadas virtudes de persona: extrema simplicidade e singular humildade. A iluminar essas premissas, lancemos as luzes emanadas da indiscutível Clarice Lispector: ‘Trata-se de um dos maiores expoentes de nossa atual geração de poetas, que é rica em poesia (...) Basta, porém, ler Marly para admirá-la, respeitá-la e, o que é tão importante, amá-la”.
Dos textos que falam da poesia de Marly, de suas tendências poéticas, de seu enfrentamento com o mistério das coisas,
libero pra vocês este aqui ,
de Felipe Fortuna, em Lavoura Arcaica
Finalizo com esta delicada jóia:
Parecia um pássaro
Parecia um pássaro, um frêmito
de folha, uma líbélula,
uma coisa evanescente
e volátil:
não era nada, um pensamento / de amor? /
que se ensaiou na sombra
e desapareceu qual rã.