
Manabu Mabe Abstrato Óleo sobre tela
DOIS POETAS BRASILEIROS
Saudade de falar de poesia, de ler poemas quentes, mágicos, engraçados, líricos. Escolhi dois poetas, um carioca e um baiano, ambos excelentes e, com certeza, conhecidos de vocês – Alexei Bueno e Luís Antônio Cajazeira Ramos.
ALEXEI BUENO

PERGUNTA
Será realmente a face do Universo
A face da Medusa,
Esta geral destruição confusa,
Este criar perverso,
Ou será a máscara, álgida e estrelada,
Onde os cometas passam,
Turva de treva, rútila de nada,
E onde olhos se espedaçam?
(De Lucernário)
L. A. CAJAZEIRA RAMOS

ANÁTEMA
Vogo na idéia vaga e vã do eu,
como se houvesse em mim um ser e um cerne,
uma alma inominada, em corpo inerme,
amálgama de fiat lux et breu.
Mimo a mim mesmo com um mimoso engano:
que o mundo existe como um fato meu;
que a vida é a imagem de ilusório véu,
tecido por mim (fio) o mundo (pano).
Fio-me que penso e existo e assim sou algo;
desfio meus véus, em busca de meu âmago,
mas desconfio que apenas seja imago...
Meu sumo é um oco totem hamletiano.
Do imane e ameno cenho, emana a senha:
a senda é ser não sendo (ou seja eu sonho).
(de Fiat Breu)
Alexei Bueno publicou, entre outros livros, As Escadas da Torre, 1984, Poemas Gregos, 1985, Nuctemeron, 1987, A decomposição de J. S. Bach e Outros Poemas, 1989, Magnificat, 1990, O Aleijadinho, roteiro cinematográfico, 1991, A chama Inextinguível, 1992, Lucernário, 1993, A Via Estreita, 1995, A Juventude dos Deuses, 1996, Entusiasmo, 1997. Como editor da Nova Aguilar. organizou a Obra completa de Augusto dos Anjos, 1994, a Obra completa de Mário de Sá-Carneiro, 1995, a atualização da Obra completa de Cruz e Sousa, 1995, a Obra reunida de Olavo Bilac, 1996, a Poesia completa, de Jorge de Lima, a Obra completa, de Almada Negreiros, 1997, a Poesia e prosa completas de Gonçalves Dias, 1998, e a nova edição de Poesia completa e prosa, de Vinicius de Moraes, neste mesmo ano. Publicou também, pela Nova Fronteira, Grandes poemas do Romantismo brasileiro, 1994, e uma edição comentada de Os Lusíadas, 1996. Traduziu As quimeras, de Gérard de Nerval, editado pela Topbooks, também com edição portuguesa, bem como, pela Lacerda Editores, a primeira edição brasileira, prefaciada e anotada, da História Trágico-Marítima
Mais um poema de Alexei Bueno:
A FLORBELA ESPANCA
Amada, por que eu tive a tua voz
Depois que o Nada teve a tua boca?
A lua, em sua palidez de louca,
Brilha igual sobre mim, e sobre nós!...
Porém como estás longe, como o algoz
De um só golpe sem fim — a Morte — apouca
Os gritos dos que esperam, a ânsia rouca
Dos que atrás têm seu sonho, os grandes sós!
Aqui não brilha o mundo que engendraste
Como o manto de um deus, e astros sangrentos
Não nos rolam nas mãos da imensa haste.
E só estes olhos meus, que nunca viste,
Se incendeiam, vitrais na noite atentos,
Voltados para o chão aonde fugiste!

Marco Luchesi
fala de Alexei Bueno em sua crítica a Via Estreita
A Via Estreita de Alexei Bueno é uma obra-prima. Nem mais. Nem menos. Trata-se de um poema total. Como o de um Coleridge ou de um Hölderlin, das grandes elegias. Alta metafísica, como a de um Hopkins. Densa como a de um Betocchi. Ampla como a de um Khliébnikov. Apenas poesia. Eis a sua radicalidade. Apenas. Nada mais claro e mais misterioso, mais literal e mais alegórico, mais profundo e mais direto do que A Via Estreita. E por quê? Porque existe um momento na vida do filósofo em que ele "deixa de ser" filósofo. Assim aconteceu com o Bachelard noturno, o da Poética do Espaço (e aqui seu pensamento abriu fronteiras). O mesmo vale para o poeta. Penso no Jorge de Lima dos XIV alexandrinos e no Jorge de Lima da Invenção de Orfeu.
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Luís Antonio Cajazeira Ramos nasceu em 12 de agosto de 1956 em Salvador, onde ainda reside. Mantém vínculo com a UCSAL como professor. É funcionário do Banco Central do Brasil, membro da Ordem dos Advogados do Brasil, sócio do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia e componente do conselho editorial de Iararana, revista de arte, crítica e literatura.
Despertou para a poesia na idade adulta. Estreou com o livro Tudo Muito Pouco (Cruz das Almas, 1983), mas rasgou e queimou quase toda a edição, abandonando a poesia por uma década. Voltou a escrever intensamente em 1995. Re-estreou com Fiat Breu (Salvador: Edições Papel em Branco, 1996). Em seguida, lançou Como Se (Salvador: Letras da Bahia, 1999), menção honrosa no Prêmio Nacional Cruz e Sousa, da Fundação Catarinense de Cultura, em 1998; Temporal Temporal (Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2002), ganhador do Prêmio Nacional Gregório de Matos, da Academia de Letras da Bahia, em 2000; Mais que sempre (Rio de Janeiro: 7Letras, 2007)
Seus críticos destacam “seu domínio da linguagem, sua sensibilidade lírica, seu trânsito entre o sublime e o profano, entre o erudito e o vulgar, sua expressão ao mesmo tempo clássica e contemporânea, seu humor entre o riso e o sarcasmo, sua predileção pelo soneto e pela subjetividade lírica, seu discurso que une clareza e complexidade, sua poética com luz própria e personalidade”.
Para o crítico Aleilton Fonseca, sua “múltipla e inquieta poesia é rica em motivos e recursos, sendo ele um “poeta de vivências, de observação e de indagações existenciais”, cujos “temas são verdadeiros mergulhos da razão e do sentimento na essência e circunstâncias da vida”, com “riqueza semântica e metafórica, numa conformação de linguagem que sugere multíplices direções de leitura”, aberta ao “contínuo exercício de construir, lapidar e re-significar”, num “processo que é a força-motriz de sua criação”.
Mais um poema de Cajazeira Ramos:
LABIRINTO
Há dias em que chove (há dias chove
assim) como se pétalas (ou mais
que flores: flores!) lá do céu (além
do Universo sem fim) lançassem pólen.
Quem joga sobre mim (a luz divina
vive?) a chama (no fogo, Belzebu
sobrevive?) do olhar (serei guru
do apocalipse?) que no amor se anima?
Meus castelos de areia (sem cimento),
com muralha de aléias (feita a vento),
têm janelas pra dentro (porta afora).
(É melhor que me cale!) Digo mais:
(será sonho ou verdade?) terei paz
(tudo bem: tanto faz) se amar agora.
Alexei fala de Cajazeiraeira (sobre o Fiat Breu)
Luís Antonio Cajazeira Ramos, nos vivíssimos poemas de Fiat Breu, revela-se, acima de tudo, como um poeta das formas fixas. Não que não seja plenamente eficaz nos versos livres, que também existem no volume, mas é nas formas tradicionais, e sobretudo no soneto, que a sua verve, a sua dicção fortemente pessoal, melhor se revela.
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Cajazeira Ramos entrevista
Alexei BuenoLuís Antonio Cajazeira Ramos - Uma obra tão volumosa nessa pouca idade, você é poeta full time, compulsivo? Alexei Bueno - Não, de maneira alguma. Entre o final dos anos 70 até meados de 80, posso dizer que escrevi com certa regularidade. Depois disso, e cada vez mais, escrevo mais ou menos por crises, ou seja, quando implacavelmente baixa o santo, aquele momento - tradicionalmente chamado de inspiração, perfeitamente conhecido desde os gregos e negado pelos idiotas - em que todas as reservas emocionais e intelectuais há muito acumuladas, em latência, se reúnem para a eclosão de determinada obra de arte. De 90 a 91 não escrevi uma linha, o mesmo de 94 a 95. Não tenho qualquer compulsão, apenas certa angústia com a passagem do tempo.
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