
Uma colagem com trabalhos da artista plástica
Elisa de Magalhães, um deles premiado no Salão de Curitiba no ano de 2.002 (fotos captadas por câmera pinlole)
Não quero que pareça vaidade de vó. Procuro me comportar dentro de um quadro de humildade, tanto quanto a humana condição mo permita. É que ganhei um presente da minha neta caçula, um presente inesperado, um conto, que me deixou extremamente jubilosa. Um conto com alguma densidade para uma garota de 15 anos.. Guardei-o na gaveta de minha mesa de trabalho, o mais perto possível de mim. Lá se vão quase cinco meses, desde o meu aniversário de oitenta anos.
Inesperado, fato inesperado acontece! A gaveta torna-se pequena para contê-lo. Acreditem, ele toma todo o espaço livre da gaveta! Tenho que dá-lo à luz, liberá-lo para vocês, que mostraram recentemente que entendem e aceitam os arroubos das avós, principalmente daquelas que já se enquadram na categoria de longevas.
Partilho, então, meu presente com vocês.
A Moça do 401
Eu morava em Botafogo, na rua Barão de Lucena, em um prédio com 18 andares, no apartamento 301. Aquela rua tinha uma série de prédios com a mesma estrutura e todos possuiam um nome de uma cidade de Minas Gerais; era Congonhas do Campo, Barbacena, São João Del Rei.
Eu gostava de ficar na varanda, era pequena, de azulejo amarelo, grade marrom, nada de especial, mas eu ia lá todos os dias. Simplesmente gostava de ficar observando a rua e a calçada em frente, que parecia um espelho da calçada em que eu morava, pois ambas tinham prédios iguais, com nomes de cidades mineiras e varandinhas agradáveis.
Um belo dia, eu comecei a reparar nas varandinhas do prédio em frente e deduzir a vida das pessoas; dei nomes, profissões, filosofias de vida; eram todos personagens. Foi quando eu percebi a moça do 401. Todos os das, ela ia para a varanda, por volta das sete horas da noite e andava de um lado para o outro em sua camisola branca, pensando, como se estivesse tomando decisões que mudariam a sua vida. Até que parava no canto da varandinha, olhava para baixo durante uns vinte minutos, depois continuava a andar de um lado para o outro, durante uma hora; e entrava.
Não conseguia mais parar de pensar naquela moça, o que será que há com ela? Fui criando milhares de hipóteses absurdas, ou não. Eu, porém, nunca havia percebido que, na janela ao lado da varanda, estava sempre uma televisão ligada e a luz apagada.Presumi que outra pessoa morava com ela...marido? Filho? Empregada? Tudo passava pela minha cabeça.
Eu tinha alguns amigos naquele prédio e, quando perguntava se eles já a tinham observado, me chamavam de louca (E quem não é?). Confesso que me senti um tanto insana, culpa deles, mas não deixei de observar a moça do 401, queria saber por que, por que ela fazia a mesma coisa todos os dias? Quem morava com ela?
Eu não conseguia fazer dela um personagem, eu simplesmente precisava saber a verdade, era como um desvio, ela podia até tornar-se um personagem, mas de uma história verídica; e histórias com base em hipóteses não são tão verdadeiras assim.
Lembro-me até hoje da data, 12 de abril de 1998, neste dia, eu recebi um bilhete escrito: “Obrigada, ass. Lúcia”; não entendi e guardei o bilhete em uma caixinha, esperando uma explicação. Às sete horas da noite deste mesmo dia, eu já estava na varanda, com meu bloquinho vermelho e um lápis, tentando desvendar o mistério da moça do 401. Ela entrou na varanda, andou de um lado para o outro, parou, olhou para baixo, olhou pela primeira vez para mim, com olhos profundos e cheios de lágrimas e pulou. Fiquei móvel, não conseguia gritar, chorar, me mexer, somente olhar.
Uma gota de lágrima escorreu pelo meu rosto. Lúcia sempre soube que eu estava lá.
Não espero comentários elogiosos. Quero só que entrem nesta onda de euforia, nesta tendência em ver beleza nos gestos simples, no incipiente esforço por expressão própria, na abertura para o crescimento, para a Vida com seus mistérios, paixões e glórias.


A minha mocinha - como está agora, aos dezesseis.